O jipe Engesa continua a inspirar muita gente Brasil afora, mas é fato que restam poucas unidades mantidas como vieram ao mundo. O 4×4 que você aprecia nessa reportagem é um dos modelos mais bem mantidos por seu proprietário


Fotos Angelo Meliani

O engenheiro mecânico Amador Rodrigues, natural de São Paulo é fã declarado dos modelos Engesa e adquiriu o primeiro jipe há aproximadamente 27 anos, sendo que este é o terceiro veículo que já passou pela sua garagem, que já abrigou também dois Land Rover Defender e um Jeep Ford militar 1983.

O gosto por jipes e utilitários vem de longe. “Meu pai tinha um Gurgel que eu usava. Uma vez passeando com minha esposa na Serra do Mar, atolei a frente dele numa poça e a frente enterrou até o pisca. Já estava ‘escutando um monte’ e eis que horas depois surgiu um Engesa e o motorista, todo solícito, colocou uma cinta e pediu para a esposa dele nos tirar daquele sufoco. Não precisa falar que não demorou 10 segundos. Pude ver sorrisos de satisfação em todos os presentes. Ai eu disse para a minha mulher: este vai ser o nosso próximo 4×4 de verdade!”, lembrou Rodrigues com bom humor.

“Eu disse para a minha mulher: este vai ser o nosso próximo 4×4 de verdade!” – Amador Rodrigues

Esse jipe foi adquirido pelo engenheiro mecânico em uma companhia telefônica de Rondonia, em 1991. “O carro estava inteiro e com a quilometragem baixa, mas a pintura estava opaca e todo o veículo estava sujo de terra vermelha. Fiz uma revisão de freios e buchas, troquei todos os lubrificantes e fui viajar para Monte Verde, MG”, relatou o off-roader.

 O dono mandou instalar um guincho, faróis auxiliares, capota de lona e pneus novos e é dessa forma que o Engesa está até hoje

Na volta dessa viagem, Amador desmontou o carro inteiro e como desejava ter um jipe perfeito e original, pintou com a mesma padrão de cor, além de substituir as lanternas traseiras e piscas dianteiros por peças iguais só que novas e também originais, as quais, hoje, são impossíveis de serem encontrados. Além disso o dono mandou instalar um guincho, faróis auxiliares, capota de lona e pneus novos e é dessa forma que o Engesa está até hoje.

Rinoceronrte foi o primeiro apelido que o robusto jipe Engesa ganhou

Como estava com a estrutura impecável, foram os detalhes mais demorados na finalização do upgrade. “O que mais me deu trabalho foi restaurar o temporizador do limpador de parabrisas. Os faróis, por exemplo, são fracos até hoje, por isso acho que a parte elétrica dos Engesa não é o seu ponto forte. Ou talvez não seja o meu ponto forte”, dissertou o dono.

E não pense que o carro ficou sem uso ou apenas guardado em uma garagem fechada por todo esse tempo. “Já viajei muito com esse jipe, atualmente ele fica em Ilhabela e é o meu meio de transporte por lá. As vezes faço trilhas até Castelhanos (famosa praia do local) junto com amigos”, informou Amador. Quando chove muito na região e ele ajuda alguém na trilha é fácil ver meia duzia de turistas fotografando e filmando o Engesa em ação. E todos com aquele sorriso, inicialmente de incredulidade, e depois de admiração. Isso dá muito orgulho ao proprietário, que nos disse que o Engesa é mesmo um sonho realizado. “Tive outros 4×4 e acabei vendendo por um ou outro motivo. Mas não existem mais Engesa originais. Este vai ficar na família pra sempre”, finalizou Rodrigues.

“Tive outros 4×4 e acabei vendendo por um ou outro motivo. Mas não existem mais Engesa originais. Este vai ficar na família pra sempre” – Amador Rodrigues

Para mais informações e troca de ideias, fale com Amador Rodrigues pelo telefone (11) 99977-7889 ou através do e-mail: [email protected]

HISTÓRIA DE UM 4X4 100% BRASILEIRO

Depois que a Ford encerrou a produção do Jeep em abril de 1983, a Engesa decidiu criar um produto para esse mercado, sempre almejando também o mercado externo.

Nascia assim, em 1985 o EE-12 na versão militar e o Engesa 4 na versão civil. As diferenças entre eles são os equipamentos militares e o sistema elétrico, sendo 24 e 12 volts, respectivamente.

Engesa EE-12, criado para ser um utilitário militar, esse veículo agradou em cheio o público off-roader

Depois que a Ford encerrou a produção do Jeep em abril de 1983, a Engesa decidiu criar um produto para esse mercado, sempre almejando também o mercado externo

Durante os primeiros testes, foi nomeado de EE-14 (alusiva a capacidade de carga de ¼ de tonelada), mas como possuía maior capacidade, a nomenclatura mudou para o número 12 (½ tonelada). Foi inteiramente desenvolvido pelo Grupo de Desenvolvimento e Engenharia Experimental da Engesa.

Concebido para transportar cargas e pessoas por estradas acidentadas, lama, areia ou água, o Engesa ainda oferecia conforto para veículos de sua classe, em função do sistema de suspensão e amplo espaço da cabine.

Concebido para transportar cargas e pessoas por estradas acidentadas, lama, areia ou água, o Engesa ainda oferecia conforto

O carro saía de fábrica com estrutura toda em aço reforçado e com tratamento anticorrosivo. A carroceria, com chapas dobradas e não estampadas, teve por objetivo tornar a construção mais simples, aumentar a resistência e facilitar a manutenção e eventuais reparos.

Painel espartano e funcional: só o necessário. Tração 4×4 acionada por alavanca

Internamente, um espaço razoável para quatro passageiros, com bancos dianteiros individuais e ajustáveis, e traseiro interiço e removível, todos confeccionados em vinil. O painel é absolutamente funcional, oferecendo fácil visualização dos instrumentos: velocímetro, medidor de combustível, indicador de temperatura do motor e luzes de advertência da bateria, óleo, freio de estacionamento, luz alta, setas de direção e do acionamento da tração 4×4.

Várias peças eram advindas de automóveis comuns no mercado da época, principalmente modelos GM, como o Opala.

Como itens de segurança, havia cintos de segurança subabdominais, quebra-sol, alça e estribo para embarque, espelhos retrovisores interno e externo (com opcional para o lado direito), limpador e lavador de pára-brisa, luz de cortesia, porta-luvas, cinzeiro e abertura para rádio. Sob o banco dianteiro localizava-se a caixa de ferramentas, com triângulo, chaves de roda e macaco.

Logo no início da produção, foi apelidado de “rinoceronte”, devido ao design agressivo da grade dianteira e, como o animal, não tem medo de enfrentar os desafios.

O 4×4 foi apelidado de “Rinoceronte”, devido ao design agressivo da grade dianteira e, como o animal, não tem medo de enfrentar os desafios

Boa parte graças à suspensão – um dos diferenciais na época de lançamento – inédita, até então, no Brasil na categoria. Na frente e atrás, os eixos rígidos eram dotados de barras oscilantes longitudinais e transversais, com molas heicoidais e amortecedores de dupla ação, que o fazia enfrentar qualquer obstáculo de terreno.

Chapas retas, cortadas ou dobradas, assim nascia o desenho do jipe Engesa

O EE-12 foi criado com Fases I, II e III, diferenciando entre si os chassis curto, médio e longo, respectivamente. Todos foram exportados para países como Iraque e Jordânia. O Exército Brasileiro recebeu alguns exemplares do EE-12 Fase II com motor diesel da marca Perkins, usados até hoje em algumas unidades.

A Engesa chegou a fazer um protótipo Fase I diesel de quatro cilindros proveniente da antiga Kombi, com caixa de reduzida. Mas oprojeto não vingou pelo fato de o propulsor ser fraco. Os Engesa civis são equipados com os motores GM 151 de quatro cilindros à gasolina, com potência de 80 cavalos, ou a álcool com 75 cavalos de força.

O motor mais utilizado na primeira geração Engesa: GM 151 de quatro cilindros

Originalmente, nenhum Engesa possui a tradicional caixa de reduzida. Como tem cinco marchas, a primeira é extremamente curta e funciona como uma “super reduzida”, e no asfalto só é praticamente possível colocá-lo em movimento em segunda marcha.

A primeira marcha é extremamente curta e funciona como uma “super reduzida”, e no asfalto só é praticamente possível colocá-lo em movimento em segunda marcha

Quando foi lançado, a fábrica localizada em São José dos Campos, SP, produziu inicialmente 100 unidades mensais, mas com aumento previsto para atender às demandas de vendas no mercado interno e externo.

Na Fase II – 1989 –, o jipe foi alongado em 30 cm, o que ajudou a entrada para os passageiros de trás, com uma porta mais ampla. O painel ficou mais moderno quando teve os botões substituídos por teclas.

Ao todo, mais de 1.600 jipes foram fabricados, dos quais aproximadamente 500 serviram aos militares

A Engesa entrou entrou em concordata em 1990, paralisando a fábrica e sem condições de pagar os salários mensalmente aos mais de mil empregados.

Ainda nos anos 1990, saiu da linha de produção alguns EE-4 com propulsores GM 6 cilindros. Em 1991, a instalação em São José foi vendida para a Embraer, e a falência foi decretada em outubro de 1993. Nesse tempo, uma terceira versão foi vendida por aqui, o Jordânia – ainda mais comprido –, que fazia parte de um lote fabricado para o país de mesmo nome, seguindo as especificações das Forças Armadas locais.

A capota de lona e o estepe na traseira reforçavam a vocação de off-road genuíno do Engesa

Ao todo, mais de 1.600 jipes foram fabricados, dos quais aproximadamente 500 serviram aos militares. Hoje grande parte desse jipes está nas mãos de off-roaders, porém com muitas modificações.

Ficha Técnica – Engesa EE-4 Fase I 1986

Motor gasolina e álcool: GM 151, 4 cilindros em linha, 4 tempos
Potência gasolina: 82 cavalos a 4.400 rpm
Potência álcool: 88 cavalos a 4.400 rpm
Torque à gasolina: 17,1 kgfm a 2.500 rpm
Torque a álcool: 19,4 kgfm a 2.000 rpm
Cilindrada gasolina e álcool: 2.470 cm3
Arrefecimento: agua
Taxa de compressão gasolina: 7.5:1
Taxa de compressão álcool: 10,5:1
Transmissão: Câmbio Clark, 5 marchas à frente e 1 à ré
Relação de marchas
1ª: 6,33:1
2ª: 3,60:1
3ª: 2,15:1
4ª: 1,40:1
5ª: 1:1
Ré: 6,42:1
Tração:4×2 ou 4×4 optativa através de caixa de transferência Engesa.
Relação de redução: 1,00 : 1
Embreagem: Monodisco a seco, acionamento mecânico por meio
de cabo
Suspensão Dianteira e traseira: Barras oscilantes longitudinais e transversais, com molas helicoidais e amortecedores de dupla ação
Direção: mecânica, coroa e pinhão
Freios
Dianteiro: A disco, com acionamento hidráulico, servo-assistido, duplo circuito
Traseiro: A tambor, com acionamento hidráulico, servo-assistido, duplo circuito
Rodas: aço de 16”
Pneus: 670 x 16” e 750 x 16”
Dimensões (mm)
Comprimento: 3.590
Largura: 1.440
Altura: 1.900
Vão-livre: 235
Entre-eixos: 2.160
Passagem em água: 600
Ângulo de entrada: 70º
Ângulo de saída: 50º
Inclinação lateral: 35º
Peso: 1.400 kg
Capacidade de carga: 500 kg
Sistema elétrico: 12 Volts
Velocidade máxima: 105 km/h
Autonomia (gasolina): 440 km
Autonomia (álcool): 360 km
Tanque de combustível: 80 litros

James Garcia
Jornalista Editor natural de São Paulo, tem se dedicado a publicações relacionadas ao universo off-road há 25 anos. Instrutor e piloto técnico, participa ativamente de expedições, viagens e treinamentos de veículos 4x4 e off-road, com as principais marcas do segmento.

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